sábado, 29 de junho de 2013

Retrato

Brincam lá ao longe, perto da linha do comboio amarelo junto ao café mais conhecido da freguesia, onde a terra é seca, fina e castanha como se fosse trazida dos campos dali perto. Brincam ao calor, e o suor seca ao vento que mais não se faz sentir. À sua volta não está ninguém, pelo menos para eles que dançam à volta das cadeiras que não chegam para todos. O ar quente que me deixava na morrinha de um dia secante desvanece quando os que brincam trazem o prazer para a cor das folhas no alto das copas das árvores de fruto. A secante transforma-se num sorriso pelo contágio dos ingénuos de felicidade, ou dos corajosos, bravos e crentes no prazer ao segundo. No prazer do agora, já ou nunca mais. A vida consegue parar o tempo, num segundo que vira hora, num ambiente que se julgava finado e vira roda viva. Numa roda viva que desaparece com as preocupações dos adultos. Os ingénuos de felicidade sentam-se repentinamente. Quebra o barulho o silêncio dos grandes. Quebram os descrentes a dança dos ingénuos.

Passou a existir uma hora

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Contexto inevitável

Qual era a graça da torre sem o relógio e da hora sem o tempo? Qual era a graça do inverno sem o vento e do calor sem o suor dos que dele desesperam? Somos um inevitável ser engolido por um mundo que em tudo exerce o poder da sua influência. O homem que ri de si pode nem ser nada, pode ser um tolo ou um amigo cheio de muitos outros. Esse mesmo homem que sem o tempo com as pessoas se sente vazio não seria o mesmo sem a sua expressão de solidão que extravasa o razoável da saudável emoção. Escorre-lhe o suor entre os pêlos do corpo que lhe parecem pesar mais o intolerável e por vezes inconcebível do tempo lento. Tal como a clássica morte lenta, o vazio de si prega para que o tempo voe e que o mesmo agarre na alma vazia e a leve para a bem longe da sua pele de sentimentos.

Passou a existir um vazio

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Segundo certo

Num deserto de terra seca, onde o chão está repleto de fraguças e onde se tem medo de andar. É assim que se sente uma pessoa com um mínimo de auto-consciência. Embora demasiado tardia. O desejável é que  tivesse  outrora sonhado, e remotamente vivido. Porque por muito remoto que tenha sido, tinha muito potencial para desenvolver vida à sua volta. Revoltado vive este relógio de consciência que até há uns dias andava atrasado. Agora as pilhas são outras. De uma marca nova, sem apoios de ninguém. São pilhas de quem deixou para trás a beleza de outros relógios e agora procura andar sempre ao som do tempo, segundo a segundo, sem nunca atrasar o tic, sem nunca adiantar o tac.

Passou a existir o segundo certo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Zero emocional

Um passado com coisas boas e coisas más como todos os outros. Mas com coisas muito confusas no passado recente. Por isso. Por isso, basta! Basta de mim próprio! Basta de burrice emocional. Não há pior que sentir que desfalcámos o caminho a pessoas que nos são de bem e nos queriam bem. É hora de pegar na vassoura e vassourar, é hora de queimar o lixo presente do hoje e deixar-me limpo, puro, e pôr o meu contador de boa pessoa a zeros. E saio para o amanha com zeros bem pesados, mas que num futuro, embora distante e por agora invisível, me tragam palavras de boa pessoa.

Passou a existir um zero