Custa-me ver o teu olhar perdido. De quem ouve, mas não escuta, de quem sente mas não sabe o quê. Perdeste o sentido das coisas e ainda assim mantens uma calma aterradora. Que me assusta só de pensar como lidas tão bem com a a doença que te come. Não acredito que seja das tuas refeições, metade alimento e metade comprimido. Não acredito porque te conheci antes. Não que queira de fazer de ti um herói. Mas porque para mim és a melhor pessoa que conheço e que em tempos me ensinou os números e as palavras. Custa-me ver a injustiça caída em ti. É injusto o que se passa contigo. Um homem que em todos os meus anos me foi um pai, um professor da primária e um professor da vida. Um homem que todos gostam, e daí se vê a tua grandeza. Entristece-me saber que não há volta a dar, mesmo que já se tenham passado largos meses desde que começaste a ser traído pelo teu corpo. Passam-se os meses mas a tua presença marca como se ainda estivesses são. Se não fosse pessoa que do teu sangue partilha, eras na mesma alguém muito especial. Porque realmente tu tocas nas pessoas de uma maneira diferente. Tocas com uma bondade inata e um saber ser, um saber estar que são ímpares. Ainda hoje me ensinas, ainda hoje te admiro, mesmo que me custe falar e não saber se não me respondes porque não queres, porque tens a consciência que não me sabes responder ou até porque se não me ouves. Tens no corpo os maus tratos de uma vida de trabalho e suor pelos teus, mas o teu rosto, esse sim guarda o sorriso, embora agora mais escasso, um sorriso puro, de quem ama, de quem gosta e de quem ainda consegue mandar a sua piada, mesmo que sem querer. E não é que te invejo? Invejar um homem idoso e em estado pobre de saúde, é sinal que o seu valor como ser humano é de uma riqueza impressionante. Guardo numa inconsciência maluca que o teu estado de saúde nunca vai piorar. É como se tivesse bêbado por momentos e perdesse a noção da realidade, mesmo eu sabendo o quão falso isso é. É principalmente por ti que cada vez menos acredito numa divindade que nos vê. Esta divindade tem de estar cega para não ver alguém que educou um molho de crianças que hoje estão bem, adultas, crescidas de civismo e com espírito de partilha, de partilha de sacrifícios de partilha de bondade, de partilha do teu toque. Por várias vezes pensei escrever sobre ti, mas nunca o fiz porque pensei que se o fizesse me estaria a despedir de ti. E que isso não era justo para ninguém. Hoje escrevo, porque na minha ressaca vejo que cada dia é uma pequena despedida e tu poderás dizer adeus sem ouvires antes um obrigado. Não sei se viverás anos, ou terás o azar de viver dias. Mas que os vivas bem, por muito distante que te sinta. Dava pedaços do meu cérebro consoante te fizesse falta para poder-te ver a fazer as tuas caminhadas, a conduzir o teu carro velho que tanto estimaste, e para poderes aturar a tua mulher.
Guardo em mim tudo o que me ensinaste desde os meus primeiros anos de vida até hoje, desde as contas de dividir que para mim eram um tormento e as fizeste mais fáceis até à coragem com que estás a enfrentar esta diminuição de capacidades físicas que a doença te impõe.
Quando falei de me ensinares as palavras e os números veio-me à cabeça a tua caligrafia. Autêntica obra de arte que muito invejo. Mesmo bonita. Hoje tremida pela doença e frustração de veres que a caneta te treme nos dedos.
És um homem com muito pouco agora, mas com tanto que eu admiro. Obrigado meu amigo, obrigado meu professor, obrigado por todos os minutos partilhados, pois um homem como tu até no completo silêncio me preenche.
EXISTE UM HOMEM DE CORAGEM, DE LOUVAR, UM HOMEM DE BEM!
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